• Matheus G.

Uma breve introdução à teoria musical

Updated: Jul 17, 2020

O que significa dizer que um som está afinado ou desafinado? O que agrada os nossos ouvidos e por quê? Descubra o incrível mundo da teoria musical, que dá explicações a essas perguntas.



O que é estar fora de tom? Por que disseram que eu desafinei? O que significa cantar fazendo a oitava ou a terça? Esse post será interessante para você, que quer saber a resposta para essas perguntas e se aprofundar um pouco mais em teoria musical. E eu já te digo: ela é do caramba!



Era uma vez... quando a música era mais intuitiva

Já houve um tempo no passado em que os compositores, cantores e instrumentistas faziam música de forma mais intuitiva. O ouvido apurado e o bom gosto eram as principais ferramentas para dizer se algo estava soando bem ou não, daí transcreviam para a partitura.


Em vários sentidos, as pessoas não tinham tanto acesso à música quanto se tem hoje: o ouvinte não tinha em mãos um aparelho que pode, com um toque, acessar todas as músicas do mundo; o violonista não tinha maior acesso a violões de alta qualidade, o que tornava mais difícil fazer melhores sons com o instrumento; para o cantor não havia um estudo técnico formal de canto; para o arranjador, não havia disponibilidade de tecnologias de produção e mixagem de áudio, que são hoje comumente encontradas na casa de qualquer músico.


No geral, não havia acesso a tecnologias e à informação como nos dias atuais. E isso tem vários impactos não só na nossa forma de ouvir e criar música, mas no comportamento da sociedade como um todo.


Hoje, se você quiser ouvir música, basta acessar o Spotify no seu celular e pronto! Você tem acesso a qualquer tipo de música de qualquer lugar do planeta. Mas não foi sempre assim: antes não era tão comum encontrar alguém que fazia sair um som realmente muito bonito de seu instrumento, e quando aparecia esse alguém, a notícia se espalhava, e virava a sensação da região. Antes da revolução do rádio e do armazenamento de áudio, as pessoas contavam principalmente com concertos e apresentações para ouvir música. Resultado: a música era algo muito mais “diferente” e valorizado do que hoje em dia.


Agora, se você toca algum instrumento e está tentando “tirar” um som, basta acessar uma vídeo-aula completa no YouTube ou até mesmo reproduzir a linha melódica em uma velocidade mais lenta, para ouvir cada detalhe, enquanto antigamente os músicos passavam bastante tempo quebrando a cabeça para descobrir como aquele som era feito.


Como resultado, estamos vivendo uma era de virtuosos, enquanto na rádio o mainstream está cada vez mais dominado pela música “perfeita” e robotizada, com o advento de recursos de afinação artificial, como o autotune.


Uma das coisas que mudaram com tanto acesso à informação foi a maior recorrência à teoria musical. Com o estudo da mesma, os aspirantes a musicista conseguem não só entender melhor o que os faz soar bem ou mal, mas também explorar com afinco as possibilidades sonoras. Isso tem proporcionado ao mundo moderno o privilégio de contar com uma gigantesca variedade de sons e estilos musicais diferentes - mesmo que fiquem mais "escondidos".


O que é teoria musical?

A teoria da música é o estudo do conjunto de convenções, práticas e possibilidades da música. A Oxford descreve o conceito em três partes: primeiramente, os "rudimentos", necessários para entender a notação musical (notações principais, de tempo e a notação rítmica); em segundo lugar, o estudo histórico da música da antiguidade até o presente; e em terceiro, a busca por definir os processos e princípios gerais da música.


O que é Música?

Música é simplesmente a arte de combinar os sons. Em sua definição mais clássica, é dividida em três elementos fundamentais: Melodia, Harmonia e Ritmo.

  • Melodia: É a combinação de sons de forma sucessiva, ou seja, uma nota após a outra;

  • Harmonia: É a combinação de sons que ocorrem simultaneamente;

  • Ritmo: É a ordenação dos movimentos sonoros ao longo do tempo.

Com o arranjo dos elementos descritos acima, é possível criar algo que soe musical.


O que é Notação Musical?

A notação musical é constituída de simbologias para representar a escrita musical, como a Pauta, as Claves e as Notas.


A Pauta é representada por cinco linhas horizontais paralelas, onde são situadas as notas.


As Claves são utilizadas para dar nome às notas na pauta. Imediatamente à direita delas, são utilizados os sustenidos e bemóis para representar a tonalidade – este conceito será discutido mais a frente – de um trecho musical.


As Notas são os sons musicais, que são sons que oscilam em determinadas frequências de maneira constante. Se quiser pesquisar mais a fundo: são sons que possuem espectro de frequência definido em harmônicas, ao contrário dos ruídos, que possuem espectros de frequência distribuídos ao longo de uma banda.


As notas mais graves possuem frequências mais baixas, enquanto as notas mais agudas possuem frequências mais elevadas.



Afinal, quantas notas existem?

Provavelmente, você já ouviu falar que existem sete notas musicais: Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá e Si, ou, no sistema inglês, C, D, E, F, G, A e B. Contudo, se você acredita nisso, vou abalar o seu mundo, pois existem infinitas notas musicais.


O fato é que nós convencionalmente quantizamos a quantidade de sons musicais que existem, de forma a fazer sentido para o ouvido humano. Mas as notas são como os números, e entre os nossos tradicionais Dó e Ré existem infinitas notas, por exemplo.


Convencionalmente, no entanto, usamos 12 notas da escala cromática de Dó, conforme abaixo:

1. Dó (C)

2. Dó sustenido ou Ré bemol (C# ou Db)

3. Ré (D)

4. Ré sustenido ou Mi bemol (D# ou Eb)

5. Mi (E)

6. Fá (F)

7. Fá sustenido ou Sol bemol (F# ou Gb)

8. Sol (G)

9. Sol sustenido ou Lá bemol (G# ou Ab)

10. Lá (A)

11. Lá sustenido ou Si bemol (A# ou Bb)

12. Si (B)

Já se perguntou o que são as notas brancas e as negras do piano? Pois bem, as notas brancas são as conhecidas notas da escala de dó (Dó, Ré, Mi, Fá, Sol, Lá e Si) enquanto as negras são os sustenidos e os bemóis – são as cinco notas extras, além das 7 principais. Elas podem ser representadas na notação musical por meio de acidentes, com os símbolos ♭ e ♯ (bemol e sustenido); os acidentes podem também ser anulados com o bequadro, representado por ♮, fazendo com que a nota volte ao seu estado “natural”.


Assinatura de tempo

Além de saber qual nota, precisamos saber também por quanto tempo ela se prolongará, não é mesmo? Para isso, utilizamos o compasso e as figuras de notas.

O compasso são divisões do trecho musical em seções que contêm batidas de tempo. Essas batidas de tempo, ou simplesmente tempos, são utilizadas para organizar em ordem cronológica o trecho, e são teoricamente constantes e imutáveis, como um metrônomo.


Mas, como não somos robôs, uma das coisas mais importantes na música é a dinâmica, que consiste na “oscilação sentimental” presente na peça; essa “oscilação” pode ser obtida a partir de vários recursos, como aumento e redução de volume, mudança de ritmo, forma de execução e variação da velocidade das batidas na música.


O compasso é representado por dois números em uma fração, como, por exemplo, o compasso 2/4. O numerador indica o número de tempos por compasso, enquanto o denominador indica a duração do tempo, em termos de figuras de notas, como veremos a frente.

As figuras de notas representam a duração da nota em questão, conforme podemos ver a seguir:

A semibreve representa uma duração de 4 tempos (1 nota por compasso de 4 tempos); a mínima dura 2 tempos; a semínima dura 1 tempo e por aí em diante. O tempo é representado com, por exemplo, ♩ = 100 Hz. Ou seja, com a frequência da nota de tempo unitário, a semínima.


Além das notas, também existem as pausas. Afinal, o que seria da música sem o silêncio, não é mesmo? As pausas são representadas da mesma forma que as figuras musicais:

O que é tonalidade?

Se você chegou até aqui, pode ser que se interesse em saber um pouco mais. O que significa dizer que o som está dentro ou fora do tom? É hora de falar de tonalidade. Para isso, vamos entender primeiro os conceitos de intervalos, escalas, acordes e campo harmônico.

1. Intervalos


Intervalos são medidas de “distância” entre uma nota e outra. Entre cada duas notas da escala cromática de Dó, há o que é chamado um semitom, ou meio tom. Veja abaixo:

C½ tomC#½ tomD½ tomD#½ tomE ½ tomF½ tom–F#½ tomG½ tomG# ½ tomA½ tomA#–½–tom–B

Um tom é a soma de dois semitons: ½ tom + ½ tom = 1 tom. Logo, entre C e C# há ½ tom e entre C e D há 1 tom. Entre E e G, há 1 ½ tom, entre G e B há 2 tons e por aí em diante.


Se tomarmos uma nota de referência (ou tônica), damos nomes aos intervalos em relação a ela. Por exemplo, tomando como referência Dó (C), subindo as notas:

Tônica ou 1º grau: C (dó). Tomando o dó central, por exemplo (frequência ≃ 264 Hz).


Nota Nome do intervalo entre C e a nota


Db 2ª menor (0,5 tom)

D (frequência ≃ 297 Hz). 2ª maior (1 tom)

Eb 3ª menor (1,5 tom)

E (frequência ≃ 330 Hz). 3ª maior (2 tons)

F (frequência ≃ 352 Hz). 4ª justa (2,5 tons)

Gb 5ª diminuta (♭5) (3 tons)

G (frequência ≃ 396 Hz). 5ª justa (3,5 tons)

Ab 6ª menor (4 tons)

A (frequência ≃ 440 Hz). 6ª maior (4,5 tons)

Bb 7ª menor (5 tons)

B (frequência ≃ 495 Hz). 7ª maior (5,5 tons)

C (frequência ≃ 528 Hz). 8ª justa (6 tons)

Percebemos que subindo as notas, voltamos ao dó, mas dessa vez, o dó está mais agudo. Esse intervalo entre a nota e ela mesma em uma altura diferente é chamado de oitava. Você já deve ter ouvido falar: “canta uma oitava acima! ” ou “desce uma oitava! ”. Nesse intervalo, a frequência da nota dobra (fica mais aguda) ou reduz pela metade (fica mais grave).

O que significa estar desafinado?

Quando as frequências das notas não estão corretas, tendo como base os intervalos em relação à tônica, dizemos que o som está desafinado, ou seja, os intervalos não estão de acordo com a nota de referência, e a sensação causada no ouvinte pode ser de estranheza. Por isso afinamos os instrumentos antes de tocá-los, para ajustar as frequências.

Conceito de consonância e dissonância

Consonância é formada por um conjunto de notas considerado estável, em contraponto à dissonância, que é considerada instável. Ou seja, a consonância consiste em conjunto de notas que soam bem por si só e não pedem resolução. Já na dissonância, as notas criam tensão – às vezes, gerando até incômodo –, “pedindo” por uma resolução. Os intervalos também são classificados quanto a esses termos:

  • Consonâncias Perfeitas:

Uníssono (notas na mesma frequência), oitavas, 4ª justa e 5ª justa.

  • Consonâncias Imperfeitas:

3ª maior, 3ª menor, 6ª maior e 6ª menor.

  • Intervalos tipicamente dissonantes:

2ª menor, 7ª maior, 2ª maior, 7ª menor, 5ª diminuta.

2. Escalas

Já as escalas são sequências de notas.

Por exemplo: a escala maior de Dó é dada por

C – D – E – F – G – A – B

Cada escala possui uma lógica de formação. No caso da escala maior, ela possui a lógica tom, tom, semitom, tom, tom, tom, semitom. Logo, a escala maior de G (Sol), por exemplo, seria:


G – A – B – C – D – E – F#

Existem várias escalas diferentes, como a escala menor, a escala menor melódica, a escala menor harmônica e as escalas dos modos gregos (dórico, frígio, lídio, mixolídio, lócrio), cada uma com sua regra de formação.

3. Acordes

Acordes são conjuntos de notas a serem tocadas simultaneamente. Assim como as escalas, cada acorde tem uma lógica de formação. Unindo três notas ou mais, temos um acorde. Os mais comumente utilizados na música popular, além de serem os mais básicos, são os acordes maiores e menores, formados pelas chamadas tríades.


As tríades são três notas que seguem um padrão. As mais simples são as tríades menores e as tríades maiores. As maiores têm sonoridade mais “alegre”, enquanto as menores são mais ligadas à tristeza. As maiores têm a seguinte lógica:

Fundamental ou 1º grau (nota que dá nome ao acorde) + 3ª maior + 5ª justa.

As menores têm a lógica:

Fundamental + 3ª menor + 5ª justa

Por exemplo, queremos saber as notas que compõem as tríades maior e menor de dó. São dadas por:

Tríade C Maior: C (dó) + E (mi) + G (sol)

Tríade C Menor: C (dó) + E♭ (mi bemol) + G (sol)

Os acordes associados a essas tríades são representados por, respectivamente, C e Cm. Ou seja:

C = C + E + G

Cm = C + E♭ + G


Tomando por exemplo D (ré):


D = D + F# + A

Dm = D + F + A

E por aí em diante.

Existem também as tétrades, que possuem quatro notas.

4. Campo harmônico

Campo harmônico é um conjunto de acordes formados a partir de uma determinada escala. Tomando como exemplo a escala de dó maior (C D E F G A B), temos que todos os acordes formados por essas notas pertencem ao campo harmônico de dó maior, da seguinte maneira:

5. Tonalidade

Por fim, tonalidade é um determinado sistema de escalas que compõem um campo harmônico. Por exemplo, tendo o campo harmônico maior de C, para que você se mantenha na tonalidade correta você deve reproduzir as notas da escala maior de dó.


Se, por exemplo, você toca os acordes C, F e G e, em sua melodia, você usa a nota F#, dizemos que isso está fora do tom, já que essa nota não pertence à escala. O resultado disso é que não soa bem.


Você pode também estar cantarolando a melodia correta, mas na tonalidade errada. Por exemplo: você pode tocar os acordes C, F e G enquanto cantarola a melodia na escala de A maior (A B C# D E F# G#). Esse é um erro muito comum para os não iniciados na música, e o resultado é desastroso. Uma solução simples para isso é manter a melodia e mudar os acordes: usar os do campo harmônico de A (A, D e E).

Espero que tenha sido útil para a sua iniciação nos estudos musicais!

O que achou do artigo?

Se tem alguma dúvida, fique à vontade e comente!


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