• Matheus G.

A polêmica do aquecimento global: afinal, ele existe ou não?

Updated: Jul 3, 2020

Vamos tentar entender por que há tanta divergência na opinião pública a respeito do assunto.

A mudança climática, afinal, é real? Se for, qual é a causa?

De fato, essa é uma questão que tem causado muita polêmica nos últimos anos. Em meio a tantas opiniões que correm na mídia, algumas pessoas têm achado cada vez mais difícil chegar em um consenso a respeito do fenômeno e suas causas, e isso é do caramba! Mas afinal, o aquecimento global está realmente acontecendo? Se sim, o que o está causando?


Antes de ir direto ao ponto, quero, de antemão, deixar claro que este artigo não visa dar minhas opiniões pessoais sobre o assunto, mas simplesmente enunciar os fatos para que você reflita sobre o tema por conta própria – talvez fazendo uma pequena pesquisa – e chegue às suas próprias conclusões. Muito bem, vamos lá!



De onde surgiu a ideia do aquecimento global?


O termo tão famoso foi usado pela primeira vez em 1975 pelo oceanógrafo e químico estadunidense Wallace Smith Broecker, que durante a década de 80 passaria a alertar frequentemente a população sobre o fenômeno. Ele apontou que mesmo pequenas mudanças na circulação oceânica são capazes de provocar mudanças de grande escala no clima global.


O cientista acumulou múltiplas medalhas ao longo de sua vida por seus estudos em oceanografia e clima, nos quais ele definiu o papel do oceano nas mudanças climáticas.


Resumindo: o termo aquecimento global foi criado por ele, e as gerações seguintes de cientistas do clima adotariam essa nomenclatura ao se referirem ao fenômeno em seus novos estudos.



Quais são as opiniões a respeito?

Bom, agora chegou a hora de conferir o que as pessoas acham. Elas acreditam ou não nas mudanças climáticas? Se acreditam, o que estaria contribuindo para o aumento da temperatura? Vamos entender melhor.


As principais correntes de opinião:


1. O aquecimento é real e a atividade humana é a principal causa.

Essa é a opinião mais comum (e famosa) na comunidade científica e na mídia. Os adeptos a essa corrente dizem que o aquecimento global existe, e é causado principalmente por ações antrópicas, ou seja, pelo homem.


A crença é de que o homem, desde a Primeira Revolução Industrial, interfere cada vez mais no clima por meio da emissão de gases causadores do efeito estufa, como o gás carbônico (CO2) e o gás metano (CH4).

Essa corrente é também a que tem o maior consenso na comunidade científica, chegando a cerca de 97% de concordância entre os pesquisadores de clima.


2. O aquecimento é real, mas a atividade humana não interfere.


Já essa corrente defende que o aquecimento é real, mas a atividade humana não exerce papel fundamental no fenômeno.


Para sustentar essa hipótese, os aderentes a ela contam com alguns cientistas que afirmam que o aquecimento global realmente existe, mas é um processo natural. Segundo esses cientistas, a atividade humana é considerada praticamente insignificante para o sistema climático do planeta, e não teria impacto suficiente para alterar a sua temperatura.


Os defensores dessa corrente também afirmam que o aumento da concentração de CO2 não seria prejudicial, uma vez que o percentual desse gás na atmosfera é muito baixo comparado a outros gases. Não só isso: poderia trazer benefícios para o planeta, já que estimula o crescimento de vegetações.


3. O aquecimento não é real.

Essa é a opinião mais extrema, e também a mais desacreditada. Afirma que o aquecimento global não tem sustentação científica ou consistência com as observações feitas nos últimos anos. Alguns defendem que a teoria teria sido criada como uma estratégia adotada por países desenvolvidos para retardar o crescimento dos países em desenvolvimento.



O vai e vem da opinião pública


De um lado, imprensa, mídia e a maioria dos cientistas sustentam a primeira opinião, afirmando que a atividade humana – geração de energia, atividades industriais e automotivas – é a principal causa do aquecimento global.


De outro lado, muitas vezes na opinião pública (isso inclui o público leigo) não há consenso: políticos, celebridades e até mesmo alguns cientistas desacreditam a interferência humana no clima. São conhecidos como os negacionistas da mudança climática. Alguns são estudiosos que detêm certa autoridade no assunto, como os meteorologistas Ricardo Felício e Luiz Carlos Molion, por exemplo.


Agora vamos pensar juntos:


Na maioria das vezes, quando nos deparamos com uma dúvida em algo que não dominamos, o que fazemos?

Ricardo Felício: um dos negacionistas do aquecimento global.

Procuramos alguém que tenha autoridade/conhecimento no assunto! Não é mesmo?

O que acontece é que quando o público recorre às opiniões disponíveis na mídia, acabam encontrando tanto estudiosos contrários como aqueles a favor à ideia do aquecimento global.


Devido ao comportamento mais fechado do meio científico, as pessoas têm menos “contato” com pesquisadores mais conceituados, e, portanto, menos acesso ao conteúdo intelectual de suas pesquisas.

E é justamente aí que reside o problema. As pessoas, no fim, querem ser convencidas por meio de debates. Devido ao comportamento mais fechado do meio científico (até hermético, eu diria), as pessoas têm menos “contato” com pesquisadores mais conceituados, e, portanto, menos acesso ao conteúdo intelectual de suas pesquisas. Desta forma, muitas vezes a opinião pública dá espaço a afirmações leigas sem que as mesmas sejam devidamente rebatidas ou esclarecidas à sociedade pelos especialistas de maior notabilidade.


Portanto, a opinião leiga fica dividida.



Os fatos

Já entendemos um pouco melhor o contexto e nos inteiramos a respeito do assunto: é hora de conhecermos os fatos e os argumentos utilizados por cada vertente de opinião. A seguinte seção conta com uma pesquisa minha – veja as referências no fim do post – e é para quem realmente quer ir a fundo no tema e entender um pouco de cada lado.


1. A variação natural do clima da terra ao longo de milhares de anos.

A oscilação natural do clima já é bem conhecida pelos cientistas há algum tempo.

É fato que a temperatura média do planeta e a concentração de CO2 na atmosfera já estiveram bem mais elevadas que agora.


Por exemplo, no período geológico Triássico – quando os dinossauros surgiram – o clima global era muito mais quente e árido, com desertos abrangendo grande parte da área terrestre. Os primeiros mamíferos evoluíram durante este período.


Na imagem abaixo, podemos ver a variação da temperatura do planeta ao longo de milhares de anos, deduzido a partir da paleoclimatologia.


História da temperatura média global ao longo de milhares de anos antes do presente, de acordo com dados reunidos por diversas pesquisas.


Gráfico no site da NASA que ilustra a variação da temperatura global ao longo de milhares de anos antes do presente.


Não é preciso muita análise para observar a variação contínua do clima, antes mesmo da nossa espécie surgir.


Nos últimos dez mil anos, pode-se ver a maior estabilidade da temperatura média do planeta, que não oscilou mais que 2º C.


É importante mencionar também que cada era terrestre contou com ecossistemas distintos e seres vivos adaptados aos biomas vigentes da época. Ou seja, muitas espécies que viveram em outras eras não se adaptariam ao clima de hoje e seriam extintas, e o mesmo aconteceria conosco: dependendo de qual era, não sobreviveríamos a condições tão diferentes.



2. O planeta aqueceu nos últimos 150 anos.

Para determinar a temperatura média do planeta, os climatologistas e meteorologistas contam com dados atmosféricos de várias localidades espalhadas pelo mundo, obtidos por estações meteorológicas. Isso inclui coleta de dados em mares e oceanos – com estações embarcadas em navios, por exemplo – além de dados da alta troposfera por meio de balões e radares meteorológicos em aeronaves.


Confira abaixo o gráfico disponibilizado no site da NASA, que mostra a temperatura média do planeta nos últimos 1500 anos:




A linha azul, legendada com “instrumental record”, indica a temperatura obtida por instrumentos de medição modernos. Nisso, os dados acumulados pela maioria das pesquisas concordam. O aumento da temperatura é fato.


Além disso, podemos ver uma amplitude de oscilação térmica de aproximadamente 1 ºC nos últimos 150 anos: mais do que teria provavelmente oscilado nos últimos 1500 anos (cerca de 0,8 ºC).


Além disso, as evidências estão além de gráficos: desde o início das observações com satélites, no fim dos anos 1970, o Ártico tem perdido cada vez mais gelo marinho no verão e ganho cada vez menos gelo marinho no inverno. Há também registros de mortes em massa de corais devido ao aumento da temperatura da água nos recifes.


As fotos acima foram tiradas na mesma época do ano.


Vale a pena ressaltar que, coincidentemente (ou não), 150 anos atrás foi início da segunda revolução industrial, com o avanço da indústria do petróleo.


Logo, sabemos que o aquecimento recente do planeta é fato, portanto, as alegações de que o aquecimento global não seria real são infundadas.


Agora que sabemos que a mudança climática realmente está acontecendo, a próxima pergunta a se fazer é: o que está provocando-a?



3. A concentração de CO2 na atmosfera é relativamente muito pequena.

A atmosfera é constituída, em volume, por cerca de 78% de gás nitrogênio (N2), 20,9% de gás oxigênio (O2), 0,93% de argônio (Ar) e 0,0409% de gás carbônico (CO2), além de pequenas quantidades de outros gases. Em suma, isso representa uma concentração de 409 ppmv (partes por milhão por volume) de CO2.


O gás carbônico é emitido naturalmente através da respiração de animais, decomposição da matéria orgânica e de outros processos biológicos. A maior fonte de dióxido de carbono na natureza são os oceanos. Anualmente, os oceanos produzem mais CO2 do que qualquer outra fonte natural ou artificial, de longe.


Além disso, existem camadas dentro da crosta terrestre que contêm depósitos de dióxido de carbono que ocorrem naturalmente.


Com todo esse CO2 natural no ar, você pode se perguntar o porquê de maiores preocupações. Mas os cientistas dizem que não é bem assim que funciona.


Segundo eles, os níveis naturais de CO2 na atmosfera costumam ter um comportamento mais constante, com picos e baixas intermitentes. E assim esses níveis permaneceram por milhares de anos. Isso ocorreria devido a um ciclo natural, que manteria estáveis os níveis do gás.


O ciclo natural de carbono na atmosfera manipula 750 bilhões de toneladas de CO2 a cada ano. Nossas emissões artificiais de 40 bilhões de toneladas anuais parecem insignificantes e irrelevantes em comparação a isso.


No entanto, a terra e o oceano, defendem os cientistas, não absorvem essas toneladas extras, pois está além do que o processo natural suporta. Dessa forma, eles explicam o crescimento contínuo que temos observado na concentração de CO2 na atmosfera: o nível aumentou em mais de 40% em um século e meio.


Também já se sabe, apontado pelas pesquisas, que mesmo uma pequena quantidade de dióxido de carbono pode ter influência significativa na temperatura, já que o gás é um propagador e absorvedor de calor extremamente eficaz na atmosfera.



4. Argumentos inválidos e fake news

No meio de tanta polêmica, é também fato que muitas pessoas na mídia se apropriam de dados falsos ou alterados para enunciar mentiras ou chegar a falsas conclusões; outras vezes, apresentam argumentos ingênuos sem validade real científica.


Já foi afirmado, por exemplo, que o gás carbônico só absorveria calor à temperatura de – 80ºC. Na verdade, esse argumento é um grande equívoco com a lei física de Wien.


Alguns também negaram o consenso entre os cientistas. Como já foi mencionado antes, há cerca de 97% de concordância entre pesquisas, artigos e publicações científicas de especialistas na área e isso é um fato, que pode ser constatado ao acessar os conteúdos dos artigos de cientistas de todo o mundo a partir de periódicos científicos na web. Se você quiser saber mais de onde surgiu esse número, confira o vídeo.


Outros já afirmaram também que a atividade solar, supostamente passando por um momento mais intenso, seria a causa do aquecimento. Porém, estudos desde a década de 1980 mostram que na verdade o sol está esfriando.


Um caso muito interessante a ser analisado é o que envolve o documentário “A grande farsa do aquecimento global”, transmitido pela emissora Channel 4 no Reino Unido: uma das evidências mais intrigantes apresentadas pelo programa foi a relação observada entre temperatura e CO2 a longo prazo.


O documentário ressaltou que as variações de temperatura acontecem sempre antes das variações de CO2, portanto, o gás não seria responsável pelo aumento da temperatura, e sim o contrário.


Anos depois, o matemático Ian Stewart demonstrou facilmente em seu livro “Incríveis passatempos matemáticos”, que a afirmação feita pelo programa estava incorreta, e aliás: era até ingênua.


Por meio de modelos construídos no computador, ele simulou a dinâmica – já bem conhecida pelos climatologistas – que ocorre entre CO2 e temperatura com equações diferenciais não lineares. Ele afirmou: “a não linearidade é contra intuitiva, e por isso devemos usar a matemática em vez de argumentos verbais inocentes”.


Ele mostrou que o argumento utilizado no documentário era inocente, uma vez que CO2 e temperatura afetam um ao outro.

Finalmente, se você chegou até aqui, cabe a você chegar às suas conclusões!


A verdade é que a temperatura do planeta está sim aumentando, mas as opiniões públicas ainda divergem sobre a sua causa. Enquanto isso, no meio científico há praticamente uma unanimidade.


Se a temperatura vai continuar subindo, só o tempo irá dizer. Mas a verdade é que o esforço para tentar controlar as emissões não fará mal ao planeta. É, no mínimo, uma oportunidade de reduzir a poluição da atmosfera.


Porém, o sacrifício que cada nação fará para alcançar isso não será igual, já que cada país conta com matrizes energéticas e economias diferentes. Por outro lado, se não fizermos nada, há a possibilidade de ser um caminho sem volta.


E aí? Tirou suas dúvidas?

Espero que tenha gostado da leitura!


Referências:


National Oceanic and Atmospheric Administration. "Global Climate Change Indicators", 2011


IPCC. "Frequently Asked Questions" Arquivado em 22 de setembro de 2017, no Wayback Machine.. In: Climate Change 2007: The Physical Science Basis. Contribution of Working Group I to the Fourth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change, 200


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Incríveis Passatempos matemáticos, de Ian Stewart.


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Hansen, J., Mki. Sato, G. Russell, and P. Kharecha, 2013: Climate sensitivity, sea level, and atmospheric carbon dioxide. Phil. Trans. R. Soc. A, 371, 20120294. doi:10.1098/rsta.2012.0294


Zachos, J. C., Schouten, S., Bohaty, S., Quattlebaum, T., Sluijs, A., Brinkhuis, H., Gibbs, S. & Bralower, T. J. (2006). Extreme warming of mid-latitude coastal ocean during the Paleocene-Eocene Thermal Maximum: Inferences from TEX86 and isotope data. Geology, 34(9), 737-740.


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Marcott, S. A., Shakun, J. D., Clark, P. U., & Mix, A. C. (2013). A reconstruction of regional and global temperature for the past 11,300 years. Science, 339(6124), 1198-1201.


https://www.arcadia.com/energy-101/environmental-impact/greenhouse-gas-emissions-natural-vs-man-made/


http://www.observatoriodoclima.eco.br/dez-evidencias-conclusivas-para-apresentar-aos-amigos-no-bar-de-que-mudanca-climatica-e-real/


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